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REPORTAGEM COMPLETA - EXCLUSIVO KAYAKSURF.NET



III Campeonato Internacional de Kayak Surf de Mundaka



Reportagem

Decorreu no fim-de-semana de 7 e 8 de Maio em Mundaka, país basco, o terceiro campeonato internacional de kayak surf. Contou com 27 inscritos oriundos do País Basco, Inglaterra, França e Irlanda do Norte distribuídos pelas mangas de HP (alta performance em que compete qualquer tipo de kayak, incluindo protótipos), IC (clássicos internacionais, kayaks com mais de três metros, casco convexo sem finos ou canais), femininos e Masters (mais de quarenta anos).

No sábado, as provas tiveram início pelas dez da manhã com um mar que não subia acima do metro e meio. Neste dia, com uma ondulação simpática e um sol espectacular, decorreram somente os oitavos de final de HP pois, com a maré-cheia, não estavam reunidas as condições necessárias para a realização da prova. No dia seguinte, o júri decidiu mudar para a praia de Bakio, a escassos km para oeste de Mundaka, onde decorreram as restantes mangas da prova. As ondas estavam consideravelmente melhores com uma esquerda não muito alta, metro e meio, dois metros, mas perfeita para surfar. No final, e apesar do favoritismo em torno de Darren Bason (também) nesta classe, o vencedor em HP foi outro britânico – Jonny Bingham. Recorde-se que Bason reunia alguma expectativa em seu torno porque era o vencedor do ano anterior em Mundaka nesta classe e este ano, em Santa Cruz, na Califórnia, classificou-se em quinto lugar na classe HP e em primeiro na “Expert Production Plastic Open”. Este ano em Mundaka, apesar de não ter conseguido o primeiro lugar em HP, sagrou-se primeiro classificado nos Clássicos Internacionais. Nos femininos, saiu vencedora a basca Ainhoa Rementeria e Luís Abando, na classe Masters. A organização estava bastante satisfeita com o evento apesar das ondas não serem as que habitualmente caracterizam a famosa Mundaka do surf que toda a Europa conhece. Txabi Caballero, da organização, está convicto de que, de ano para a ano, esta vertente da canoagem está a fortalecer-se cada vez mais. Convidado pelo kayaksurf.net a deslocar-se até às nossas praias, Txabi pretende vir até Peniche com alguns companheiros para participar numa das nossas provas de kayak surf. Cá estaremos para contar toda a história.

RESUMO DAS CLASSIFICAÇÕES

Classe HP

1º - Jonny Bingham
2º - Steve Bowens
3º - Darren Bason
4º - Oskar Martinez

Classe IC

1º - Dessie Mcglinchey
2º - Ashely Hunter
3º - Darren Bason
3º - Luis Abando

Femininas

1º - Ainhoa Rementeria
2º - Erica Chisholm
3º - Chloe Hamilton
4º - Cristina Payo

Classe Masters

1º - Luís Abando
2º - Kevin Quinn
3º - Txema Carreto
4º - Kevin Ashley


O MATERIAL

Curioso foi ver que nenhum, repito, nenhum dos concorrentes pagaiava um kayak de plástico. O domínio dos britânicos Mega Kayaks fazia a delícia de Malcolm Pearcey, presente em Mundaka para promover os seus kayaks e apoiar, entre outros, Darren Bason. Em todas as classes, de todas as cores e feitios, os Mega enchiam as objectivas. O novo kayak, o Mustang, estava na mira de todos os presentes. O próprio Malcolm, sempre que solicitado, estava disponível para apresentar a sua nova máquina aos muitos curiosos. Quanto ao restante material, as pagaias que dominavam eram, maioritariamente, da Robson (Stud, Chili, Oracle), algumas Werner e, apesar de nos coletes se verem várias marcas, nos capacetes a Gath era dominante. Todos, praticamente, usavam um capacete da reconhecida marca australiana. Quanto aos kayaks, o domínio da Mega era total à excepção de dois concorrentes que se apresentaram com kayaks que eles próprios construíram. Txabi Caballero afirmava que esta evolução foi natural -“Vê que já não temos kayaks em plástico na água. No início começámos com o plástico mas depressa evoluímos para os carbonos”. Segundo este elemento da organização, o domínio dos kayaks em fibra e carbono deve-se, essencialmente, à aproximação cada vez maior que o kayak surf tem em relação ao surf.


UM JÚRI SURFISTA...

Aqui reside uma das grandes diferenças entre a prova de Mundaka e as suas congéneres. Os três elementos do júri presentes na prova do País Basco, eram do Surf Clube de Bakio e não, como toda a gente pensaria, kayaksurfers. Confrontando com a questão desta estratégia, Txabi Caballero afirmou que, à semelhança dos regulamentos da Associação Mundial de Kayak Surf, a prova de Mundaka tende cada vez mais a ser pontuada de acordo com as manobras e regulamentos do surf, daí que no júri tivéssemos três surfistas a classificarem manobras de kayaksurfers. Como já foi escrito, Darren é um acérrimo defensor desta estratégia e quando questionado sobre a “ignorância” dos surfistas acerca das manobras do Freestyle, o britânico simplesmente disse que isso não era problema - “A questão essencial é saber identificar e pontuar manobras puras de surf e isso é que realmente distingue esta vertente das outras”.

Malcolm à esquerda e Bason ao centro



À CONVERSA COM DARREN BASON E MALCOLM PEARCEY

Nem um, nem outro necessitam de apresentações. Bason é um dos melhores kayaksurfers da actualidade e Malcolm, é o maior fabricante mundial de surf kayaks. Foi na tarde de sábado, após as provas, que falámos com eles acerca da evolução do kayak surf. Segundo Darren, a vertente norte-americana, mas virada para os IC – “Grandes kayaks, muito estáveis, excelentes para surfar mas pouco audazes” – é muito diferente de uma nova onda que começa agora a surgir na Europa. Bason considera que é um erro tentar aplicar as manobras e todo o know-how das águas bravas ao kayak surf e recorda que, nas muitas provas em que participa a nível mundial, ninguém é pontuado quando saca uma manobra na espuma, seja ela qual for. Apesar de criticar algum imobilismo na “american way”, Bason também critica algumas tendências europeias que teimam em exportar a filosofia do Freestyle para as ondas de mar. Malcolm, concorda com o Bason e reafirma que os seus barcos nada têm a ver com os “plásticos” que teimam em surfar as ondas. O sua defesa em torno dos kayaks em carbono vai tão longe que, em tom de brincadeira, até me solicitou que mudasse a foto de abertura do kayaksurf.net em que Steve Fisher surfa um Riot… de plástico. Quando questionei Bason acerca do júri “surfista” que tínhamos em Mundaka, o britânico elogiou a audácia da organização e defende que deveriam ser sempre surfistas – enquanto o número de kayaksurfers não o permitir – a julgar este tipo de prova. Reafirmou que as manobras do surf como os Botton-turn, as Reentradas, Cut-Backs, os Lip-Turns, os Aéreos, entre outras, devem ser as que melhor pontuação obtêm em provas de kayak surf. “E blunts, cartwheels,…?” – Nada disso, afirma Bason. Só se forem conseguidas na parede da onda e não onde habitualmente os sacam… na espuma.













opinião

O QUE É O KAYAK SURF?

Há uma série de novas questões que têm assolado o mundo da canoagem. Se existem modalidades que já são alvo de elevada regulamentação e teoria, esta nova vertente da canoagem peca por defeito neste campo. Ao visitar Mundaka, aprofundei em conversa com alguns dos presentes, qual a verdadeira essência do kayak surf. Por cá, esta nova vertente anda, a meu ver, algo perdida entre as regras do Freestyle e a Surf na sua mais pura essência. Se é verdade que muitos dos atletas mundiais do Freestyle consideram cada vez mais aliciante esta mania de levar os kayaks para as ondas do mar, também não deixa de ser verdade que, na sua maioria, quando andam metidos no mar, depressa caem na tentação de executar todo seu manancial de manobras de águas bravas deixando o puro surf para… os surfistas. Ou seja, a vertente norte americana – em que os irmãos Grossman fazem escola (consultar entrevista com John Grossman) – peca pelo seu classicismo. Nos states, surfar com um kayak de plástico é uma heresia daí que a categoria de eleição para os grandes kayaksurfers norte americanos seja a dos “Clássicos Internacionais” (IC) e depois é só vê-los a fazer longos passeios pelas paredes perfeitas de Santa Cruz. Pela Europa, os plásticos são habituais nas provas de kayak surf e, a um nível mais global, basta consultar a entrevista de Ben Brown, para ficarmos rendidos às magníficas fotos que Steve Fisher tirou ao neozelandês enquanto surfava um “plástico” da Riot. Então em que é que ficamos? A solução, seria fazer kayaks de carbono mais reduzidos do que os clássicos (3 metros). E a Mega Kayaks assim fez. O Mustang, com 2,33 mt e só 8 quilos (!!), é uma autêntica máquina para surfar. Agora, convenhamos, o seu preço é também algo impeditivo para as nossas carteiras. Desembolsar 1250 euros (em média) por cada modelo da Mega, não sai assim tão barato. Contudo, o preço dos “plásticos” da última geração da Wave Sport, da Riot ou da Dagger, entre outros, também não anda assim tão longe destes números. Certo é que versatilidade de um playboat em plástico é muito superior do que qualquer um dos Mega kayaks ou qualquer outro surf kayak. Com um “plástico” jeitoso, sempre podemos fazer umas ondas e, ao mesmo tempo, explorar com o mesmo barco uns rolos de rio ou umas descidas. O ideal, seria um kayak para rios e outro para as ondas salgadas… pois. ~

Mas, voltando ao cerne da questão, o que verdadeiramente está em ebulição é esta mescla de influências entre o surf e o Freestyle. Por cá, e falo do que tenho visto nas provas nacionais de kayak surf, a tendência tem sido mais pendente para o lado do “Freestyle das ondas”, chamemos-lhe assim. Ou seja, há uma série de canoístas de águas bravas – alguns com currículo em provas de puro Freestyle – que teimam em exibir os seus dotes na espuma das ondas enquanto descuram o teor do kayak surf que é… surfar. Claro que não é só “fazer paredes” como alguns criticam mas, não deixa de ser sintomático ver que, alguns dos atletas que aos poucos vão chegando ao kayak surf, têm nítidas dificuldades em questões tão básicas como reconhecer um set de ondas ou seleccionar o lado da onda a surfar. Daí que muitos dos melhores entrevistados pelo kayaksurf.net tenham experiência de surf. Recordo-me de Matt Rusher, Vince Shay, Corran Addison, Nathan Eades, entre outros, que consideram a experiência de surf muito mais proveitosa para o kayak surf do que a dos rios. Claro que, todos, ou praticamente todos os entrevistados, reconhecem que quanto mais técnica adquirirmos nos rios, melhor. Mas não chega. Ou melhor, ajuda mas são necessários outros requisitos fundamentais para enfrentar as ondas do mar. Como entrar, como sair, como ultrapassar a ondulação, são, por exemplo, algumas dessas técnicas fundamentais. Para além de tudo isto, a “etiqueta do surf” é também imperativa. São conhecidas as picardias entre as tribos do surf e os kayaksurfers. A maioria das vezes, devido a choques, atropelos e interferências nas ondas. Os kayaksurfers devem, antes de se meterem ao mar, saber que a prioridade da onda é cedida a quem a apanha primeiro. E quando há um spot ocupado, não podemos invadi-lo porque nos apetece. É básico. Acontece que muitas vezes, infelizmente, há situações que mancham ambas as partes. Desde kayaksurfers que não conhecem estas regras até surfistas afectados porque há mais alguém no mar a fazer ondas. Como muito bem disse Rusty Sage a este propósito, “Respeitem e sejam respeitados”. E quanto ao kayak surf nacional, o melhor que há a registar é a crescente onda de praticantes que tem ganho por toda a costa.

Este ano são já quatro as provas nacionais e, se há uns anos íamos ao mar com os nossos kayaks e éramos vistos como autênticos extraterrestres em território surfista, hoje, o kayak surf é já uma realidade bem visível no nosso país. Resta agora limar as arestas sobre que caminho devem assumir as provas realizadas por cá. Não cair na tentação da sobrevalorização das manobras de puro Freestyle, poderá ser um início. E convidar surfistas para ajuizar uma prova de kayak surf? Provoca arrepios em algumas mentalidades? Pois vejam o exemplo de Mundaka. Eles também começaram com os “plásticos” e o canoístas de rio. Agora, não usam senão os kayaks de carbono e convidam surfistas para ajuizar as provas. Recordemo-nos que o Internacional de Mundaka segue à risca a regulamentação da Associação Mundial de Kayak Surf. Criticável? Claro, mas sempre a ter em conta. Num período de pura experimentação, há questões que podem e devem ser colocadas. Quem ajuíza as nossas provas de kayak surf? E quanto às categorias inscritas… será que algum dia iremos ter uma divisão entre competidores IC e HP? E o que pensar das provas brasileiras que juntam o wave-ski ao kayak-surf, obviamente, em classes distintas, mas inscritas nos mesmos eventos? Será que também vamos chegar a essa variante? Para já, é altura de todos encorajarmos a modalidade. De divulgarmos nacional e internacionalmente a evolução que está a ter em Portugal. De regulamentarmos e uniformizarmos as provas dada a proveitosa situação embrionária. E de, acima, de tudo, nos divertirmos à grande com os nossos kayaks nas ondas do belíssimo Atlântico que nos banha. Estas linhas não pretendem mais do que deixar algumas questões no ar e tecer alguns comentários sobre esta coisa que tanto gosto… o mar. E os kayaks, claro!

Luis Pedro Abreu




ALGUMAS IMAGENS...

Malcolm a promover a sua nova máquina - o MUSTANG - a um canoísta interessado que experimenta o kayak



Aspecto geral de alguns competidores que se preparavam para entrar. Só kayaks de carbono...



A excelente localização do júri



Da Irlanda do Norte, Jonny Bingham, vencedor na classe HP em Mundaka



Mundaka... decididamente a visitar!



Trabalho publicado em 11 de Maio de 2005

Texto - Luis Pedro Abreu

Fotos - lpa / kayaksurf.net









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